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Nativo de Mococa, a Macondo da Mogiana (não sabe onde fica Macondo? Leia "Cem anos de solidão" que você descobre)
"Amar e mudar as coisas me interessa mais" (Belchior)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Liu Bolin, o invisível homem pintado (de um email recebido)

Cadê o China que tava por aqui? 



Liu Bolin é chinês e é um mestre na arte da camuflagem. aos 35 anos, o cara trabalha numa foto simples por aproximadamente 10 horas, e muitas vezes, depois de camuflado, as pessoas não o percebem até que se mova. Classifica seu trabalho como uma forma de protesto contra o governo chinês, que em 2005 fechou seu estúdio e passou a perseguí-lo. 


Mais fotos do cara


Fotos à venda                                Wikipedia                           Pesquisa Google














Essa última é surpreendente. 



Por um instante me lembrei do Geninho, do desenho da She-Ra. Lembra dele? Não? 

Então dá uma olhada no video aqui embaixo





Só falta o China também dar lição de moral.

OBSERVAÇÃO que não interessa a ninguém: Quando revi o Geninho, caíram lágrimas de meus olhos... E me arrepiei muito.  

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Um homem comum (Conto)


Viu-se no espelho da repartição antes de ir para casa e encanou consigo. Foi numas, mas estava naquelas. De se encontrar, e percebeu que os procedimentos dispensavam-no da persignação  que fazia no instante. E por esse mesmo instante, parou e refletiu: onde? Estava a preocupar-se, mas não sabia o que iria achar, Nem onde queria chegar. E qual a necessidade disso.
Foi quando se deu conta que tudo aquilo, de repente, era meio ilógico: sabia, um passado existia e nele se continha. Recordo-se de seus recalques e seus pudores e sentiu, assim, um medo que batizou logo de receio: não era um medo leve, mas um certo eufemismo a essas alturas seria pra lá de conveniente. Daí veio o insight: onde foi que me perdi? Em qual dado momento, considerando um fator x, levando-se em conta que qualquer coisa que existe é >0 e <∞ (maior que zero e menor que o infinito), observando-se as somas e os produtos dos meios sendo sempre maiores que as subtrações ou quocientes (independentes de restos ou diferenças), e recordando que a vida dá tantas voltas quanto a espiral de DNA inerente a si, cuja qual lhe permitia, entre outras coisas, não ser uma hiena banguela, uma ameba king-size ou um orangotango manco, onde raios foi se deixar?
As respostas vinham num turbilhão que periplava em sua massa cinzenta. Haviam várias opções, era um teste de múltipla escolha com, talvez, todas certas as respostas; totalmente meio-certas; absolutamente meio-erradas; e a clássica n.d.a. Chateou-se com tal prelúdio de dúvidas essenciais, pois sentia que eram realmente essenciais para que respondesse as questões existenciais posteriores. A priori, a ciência de si é difícil e demanda uma sinceridade imparcial, dessas que ferem e magoam por prazos indefinidos. E, pensando bem, pra que se preocupar com isso agora? Mas, no caminho para casa, enquanto andava, deveria pensar em algo. Fez então uma varredura mental e percebeu: há tempos não fazia um balanço e, como faltava um bom trecho pra chegar em casa, voltou ao ponto de partida: onde? Quando? Por que? Pra que? Quem? Como?
Agora iria até o fim.
Teria sido no início da vida, na porralouquice da adolescência, afoito em viver e experimentar, impulsivo e cheio das razões absolutas que só a imaturidade traz, a busca por novas sensações, todas essas coisas que implicam no que se é possível chamar de formação de caráter? “Não.” – pensou – “Justamente por estar com o caráter em formação é que não podia deixar de ser o que eu não era, pois o que eu era naquele momento ainda tava se definindo. Como poderia aquele moleque que eu fora um dia ter esse tipo de consciência, se ainda não me tinha sido apresentada tal virtude?”.
Definitivamente não era por ali que devia procurar.
Lembrou-se então da fase seguinte a esta, em que, jovem, vivia ainda com intensidade, ainda tenaz. Nessa época, era alegre, divertido, bonito, inteligente. Foi, talvez, digamos, um cara interessante. Alguns resquícios de adolescência lha acompanhavam até o início da idade adulta mas amadurecia depressa demais e aos poucos, esses resquícios se sedimentavam. Imaginou se seu caráter já estava formado nessa época, e achou que sim. Mas se lembrou também que quem acha não sabe nada, que se individualizou muito nesses tempos, trabalhava. Arrumou uma namorada maravilhosa, com a qual se casou; ela lhe podava muito, mas ele a amava a ponto de mudar em si o que não agradava à sua então parceira. A relação era recíproca: também era amado em igual medida pela compenheira, só que ela não fazia idéia do nível de adaptação a que sujeitava seu então marido, e disso só ele sabia. Por isso mesmo, passou à etapa seguinte: não iria encontrar nestas memórias a solução, pois concluiu que sua vida nessa época passava por mudanças demais e essa instabilidade não lhe assegurava ser ele mesmo.
No próximo período que passou a analisar, encontraria talvez os maiores desafios, os grandes altos e baixos nesse gráfico que fazia de sua vida. Sabia que agora, talvez, a porca torceria o rabo: o casamento o transformou em pai de família. E os filhos cresciam, os três, comprovando a evolução da espécie: cada vez mais fortes, sagazes, espertos, ativos. Encantava-se com suas descobertas. O trabalho ia bem, fora promovido. Se dava bem com todos os colegas, desfrutava de  situação financeira abaixo das expectativas de sempre, mas de maneira estável. Afinal, cargo público é mamãozinho com açúcar. Nunca fora corrupto, nem de pilhar o alheio. Quem sabe isso não fosse a tal felicidade da qual todos falavam e, aí sim, lhe houvesse oportunidade de ser quem realmente fosse. Mas se lembrou que nunca pôde sentir esse gostinho por aqueles dias: fazia concessões aos filhos que não gostava de permitir; apesar de não ser corrupto, como já dito, seu chefe imediato o era e lhe impunha obrigações ilícitas, as quais fazia com desagrado e pudor excessivos, tudo porque um belo dia o chefe os flagrou dando uns pegas numa estagiária nova, colega recém-chegada na repartição. Cabe aqui uma pausa pra explicar essa situação.
Era uma ninfeta de 19 anos, deliciosa. Sempre ele foi fiel à esposa, mas como Nelson já havia dito, “O brasileiro, se não é canalha na véspera, é canalha no dia seguinte.” E ele é brasileiro e não desistia nunca: a patroa engordara, perdera o viço da pele, o que a embarangou em pneuzinhos e pelancas elásticas, transformando a mulher dos sonhos em coisa intragável até na maior necessidade fálica. Ela só se preocupava com os filhos e esquecia de de sua vida, de sua beleza, sua personalidade. Era ficar à toa vendo novela de dia, reclamação de noite quando os filhos estavam todos em casa. Só os bacuris tinham importância, o que aplacou em nosso amigo, primeiro ciúmes, quando a esposa ainda tinha algo a ser notado, o que o fez, meio que inconscientemente, num mecanismo de defesa, maltratar os filhos, olhando-os com um certo rancor. Como a situação se deteriorava com o tempo, percebeu o erro, entregou os pontos, voltou a amá-los, mas se desiludiu de vez com a companheira. Apesar disso, se esforçou em ser fiel até o último momento, não por convicção, mas por convenção social mesmo... Mas a coleguinha de trabalho... Ah! Aquela estagiária.... Sintonizavam-se bem demais nas coisas do trabalho, o que um pensava, o outro pensava também; o que um fazia, o outro completava. Os olhares se cruzavam a todo instante, se aproximavam para falar próximos e ficava aquela cena de filme, quase beijo, quase sempre. Ela era jovem, cheia de vida, taluda, com tudo no lugar. Dessas de mandar foto como candidata a “Coelhinha da Playboy”. Romântica, mas safadinha na dose exata. As idéias combinavam bem demais, ela o olhava com aquele jeito doce meio sacaninha que derrete qualquer cristão fervoroso. Ela fazia questão de usar o típico uniforme de secretária: salto, meia-calça escura (ou ligas) por baixo da um a saia no joelho; camisette branco de botões, abertos estrategiicamente no decote, exibindo os fartos seios de um jeito que eles não pulavam pra fora nem se escondiam; cabelos longos, pretos e lisos, presos com lápis, formando um coque alto; óculos discretos, que também faziam as vezes de tiara quando soltava os cabelos; prancheta na mão pra fazer anotações, quando colocava a caneta na boca e fazendo aquela expressão de quem ta pensando, ao mesmo tempo que verificava de rabo-de-olho onde ele estava; um olhar penetrante quando vinha, um rebolado malemolente e hipnotizador quando voltava e seus passos faziam no assoalho um som que arrepiava até obreiro de igreja pentecostal.  Não, não era uma mulher puta, era uma puta mulher! Feminina, fêmea fatal, que além da forma clássica, tinha um conteúdo também clássico: inocente onde devia ser inocente, tinhosa onde devia ser tinhosa. E essa visão do paraíso ainda lhe dava bola! Repito: ele tentou até onde deu, mas um belo dia ela deixou na mesa dele um bilhetinho, que a procurasse na hora do almoço. Aí, parceiro, a carne é fraca e fidelidade tem limites, até porque, o nesse caso, o duvidoso que lhe aparecia era melhor do que o certo com que estava casado: em casa, comia arroz requentado e feijão amanhecido, e no máximo, uma vez por semana, sábado à noite, uma comida sem tempero e fria, o que causava acúmulo de libido e testosterona e, agora, naquele momento, essa morena, esse monumento de mulher lhe seria um banquete dionisíaco, refeição completa, caviar russo com foie gras, pra desopilar o fígado e o falo. Resumindo: não demorou muito  a cabeça de baixo dominou a de cima: foi ao local do encontro e lá, entre sorrisinhos e olhadas sem graça pro lado, ela revelou que achava ele um homem interessante e tals. Aí, querido leitor, num prestou, o nosso (herói?) nem titubeou, deu-lhe um “vem cá minha nêga”, carregou-a pro arquivo morto e mandou ver na lindinha. Foi tão bom que a coisa virou rotina, dia sim, dia outro, horário de almoço era sagrado. Foi quando chefe percebeu que os dois ficavam até mais tarde pro almoço e se aciumou da situação, pois tava de olho grande na menina e, um belo dia, driblou todo mundo, fingiu que foi prum lado, veio pro outro, deu um tempinho e... Ta lá! A estagiária, sainha pra cima, de quatro, gemendo loucamente numa enrabada... O subordinado ia e vinha, batendo a barriga naquela bunda linda... Que inveja (eu também). O chefe deu o alerta da visão, foi aquela coisa de se vestir rápido, mas o cara saiu de fininho. Chamou a estagiária, veio com a conversinha de que queria também, senão rua, ela, muito digna, preferiu perder o emprego. Quanto ao nosso herói, ao ser chamado pelo chefe, deixou claro que ou ele colaborava e fazia o que fosse mandado, ou entregava a cena à esposa, o que transformaria a sua vida num inferno de deixar o capeta com inveja. Como não tinha opção, pois também era um cara acomodado, resolveu ceder à pressão. Já a amante, ainda a encontrava no horário de almoço, num drive-in perto da repartição.
A vida tripla que levava foi a garantia de que ali ele se perdera, mas ainda não foi nesse estágio que se perdeu de si: como seu castelo de cartas marcadas caiu (a garota lhe passou pra trás depois de algum tempo, o esquema de corrupção foi descoberto, o que lhe rendeu um rebaixamento de cargo, implicando em abrir o jogo com a patroa, ocasionando assim o divórcio litigioso com pagamentos compulsórios de pensão alimentícia descontados no contra-cheque, visitas aos filhos agendadas pelo juiz, o olhar rancoroso dos três, já pré-adolescentes e manipulados pela mãe, lhe causando desgosto e remorso, vivendo sozinho numa kitinete alugada num bairro afastado do centro da cidade, sem amigos e com vizinhança que considerava de “baixo nível”, e aí então pôs-se a pensar: “não, não foi aí que me perdi de mim, pois se eu tivesse me permitido nada teria acontecido como aconteceu, as circunstâncias não me engoliriam. Logo, estava perdido há tempo... Ou será que não: Acho que se...” – parou aí o raciocínio para pôr a chave na porta e entrar em casa. A noite já estava baixando.
Então, foi dar uma mijada, saiu sem lavar a mão, foi à geladeira, não achou comida e pegou uma latinha de cerveja, ligou a TV, sintonizou a novela, sentou no sofá, peidou barulhentamente, tirou os sapatos e as meias, começou a coçar as frieiras e deixou tudo pra depois.







terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Viajante do futuro volta no tempo

As últimas informações dão conta de que o viajante não retornou até agora.. E nem quer.




Do sítio do Paranóicos

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Costinha e as raspadinhas do Rio (para rir demais) - Video


Galera, poucas vezes na minha vida eu dei tanta risada... E a "chupadinha na senhora" foi o auge.... Chorei de rir como há muito tempo....

Vale a pena pra matar as saudades do fabuloso Costinha, um verdadeiro mestre do riso.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Psicologia 1960 X 2010 - Épocas, costumes e ações (de um email)

Diferença de quando eu era criança e as crianças de hoje
(A charge não é minha, mas não encontrei os créditos).

1960  X  2010 - Vejam as diferenças de como era e como é agora:

CENÁRIO 1


JOÃO NÃO FICA QUIETO NA SALA DE AULA.
INTERROMPE E PERTURBA OS COLEGAS.

Em 1960: É mandado à sala da diretoria, fica parado esperando 1 hora, vem o diretor, lhe dá uma bronca descomunal e volta tranquilo para a classe.

Em 2010É mandado ao departamento de psiquiatria, o diagnosticam como hiperativo, com transtornos de ansiedade e déficit de atenção em ADD, o psiquiatra  lhe receita  Rivotril. Se transforma num Zumbí. Os pais reivindicam um auzílio do governo por ter um filho incapaz.


CENÁRIO 2

LUÍS QUEBRA O FAROL DE UM CARRO NO SEU BAIRRO.

Em 1960 Seu pai tira a cinta e lhe aplica umas sonoras bordoadas no traseiro... A Luís nem passa pela cabeça fazer outra nova "cagada", cresce normalmente, vai à universidade e se transforma num profissional de sucesso.

Em 2010: Prendem o pai de Luís por maus tratos. O condenam a 5 anos de reclusão e, por 15 anos deve abster-se de ver seu  filho.   Sem o guia de uma  figura paterna, Luís se volta para a droga, flerta com a delinqüência começa a freqüentar a Fundação Casa.

CENÁRIO 3

JOSÉ CAI ENQUANTO CORRIA NO PÁTIO DO COLÉGIO E MACHUCA O JOELHO. SUA PROFESSORA MARIA,  O ENCONTRA CHORANDO E O ABRAÇA PARA CONFORTÁ-LO...

Em 1960
: Rapidamente, João se sente melhor e continua brincando.

Ano 2010: A professora Maria é acusada de abuso sexual, condenada a três anos de reclusão. José passa cinco anos de terapia em terapia. Seus pais processam o colégio por negligência, e à professora por danos psicológicos, ganhando as duas causas. Maria renuncia à docência, entra em aguda depressão e se suicida...  


CENÁRIO 4

DISCIPLINA ESCOLAR

Em 1960: Fazíamos bagunça na classe... O professor nos dava um bom "esporro" e/ou encaminhava para a direção; chegando em casa, nosso velho nos castigava sem piedade.

Em 2010: Fazemos bagunça na classe. O professor nos pede desculpas por repreender-nos e fica com a culpa por fazê-lo . Nosso velho vai até o colégio se queixar do docente e para consolá-lo compra uma moto para o filhinho. 


CENÁRIO 5:

HORÁRIO DE VERÃO

Em 1960: Chega o dia de mudança de horário de inverno para horário de verão. Não acontece nada.

Em 2010: Chega o dia de mudança de horário de inverno para horário de verão. A gente sofre transtornos de sono, depressão, falta de apetite,  nas mulheres aparece celulite.


CENÁRIO 6:

FIM DAS FÉRIAS.

Em 1960: Depois de passar férias com toda a família enfiada num Gordini, após 15 dias de sol na praia, hora de voltar. No dia seguinte se trabalha e tudo bem.

Em 2010: Depois de voltar de Cancún, numa viajem 'all inclusive', terminam as férias e a gente sofre da síndrome do abandono, ataque de nervos, ziquizira e seborréia.



 Conclusão: A vida hoje tá mais cheia de frescuras ou naquele tempo era tudo primitivo?





domingo, 6 de fevereiro de 2011

Mormaço

964 - MORMAÇO


por Ricardinho Sales



No calor deste dia
         perde-se a linha

      a alma em banho-maria
            e o corpo não se sacia

            quer água
            faz vento

      e o alento vem quando há brisa
            que alisa mansa o caminhar

em paz não se fica

      é sede e calor e gotas

                  na calada da tarde
                  o quente desata o nó
                        desabotoa o ser e o pó

conduz
            o ritmo outonal no varal
            que secoumedecido fica

      se faz luz

fria fosca cinza
            no céu plúmbeo
      vê-se o sol lutando para alumiar

fragmentos dele chegam e não bastam
mas servem para o cozinhar
                  do ser

Embate
      vontade e leseira nesse palco
      preguiça quer, vontade não deixa

      e as sombras borradas  
            mancham a terra
                  moventes e quebradiças

            olhar molha os olhos   
            causa do reflexo a evaporar

                        haverão jardins floridos?

Crassa é a cena

e nuvens não deixam arrebol
brilhando fofas em formas
que a vista fica a imaginar
o estúpido e entupido céu

mas nós queremos mais
e saímos juntos a esse buscar
ao léu desta aurora diurna
a divina sensação do gostar.


13/04/09
12:17:29

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Sem cabimento

por Ricardinho Sales
"Dia de Pentecostes em Israel" nanquim do mestre Getúlio Cardoso

        Cabe, aqui,
              a seiva
             na relva
       em folhas
          dropando
           fluindo
       a energia

        Cabe, aqui,
            a semente
          tão somente
             sentimento
            a estréia
            estreita
        e não-estéril
               febril
          essa partida

        Cabe, aqui,
    o sangue
    em baques
       bombeado
 tão rubro
    combustível
     acelerável

        Cabe, sim
       no peito
      sem jeito
        o resto
         e o tudo
           entulho
           intumescido
           esculacho
        translúcido

        Faço caber
     o que precisar
       para encher
           deixar
             em riste
              a mente
             tão longe
                 em seu lugar
         e seus aondes

         E dá ainda
          confusão
        toda essa
            coisa
             insana
           encasulada
             cabendo assim
                 até o fim


26/10/10
00:45:53

domingo, 30 de janeiro de 2011

Tulipa Ruiz - A revelação da MPB de 2010

Na minha página Sentindo a vibração, postei um material sobre Tulipa Ruiz. Confiram!!!

Acerto de contas com a infância

por Ricardinho Sales


Aquele menino
não fugiu de mim
ficou assim
tão pertin
que nem sei
quando é quem

fez de mim
essa lágrima que escorre
enquanto escrevo

jaz aqui
interno
mas não interino
René Magritte, Le double secret, 1927

quer voltar
assumir
seu lugar.. não freio

apenas sinto
por dentro
seus gritos

e ele vem
sem medo
de ser
tão meu
tão seu



quero-o agora
e sempre
pois parte
de mim e de mim
é e vai
fica e sai
volta quando quer
retorna quando ser

não o podo
nem castro
pois sei ele
meu eu mais feliz
o que o ai me diz



31/10/2010
00:18:07

domingo, 23 de janeiro de 2011

Lembrando Sampa (Homenagem ao aniversário de Sâo Paulo)

Por Ricardinho Sales


Fotografia de Satélite da Grande São Paulo
Quando eu chego
a lágrima escorre
  lembro
  o muito de ti 
         que há em mim


já na Marginal
       vejo as luzes
  e recordo
      nossa antiga parceria
      repousa no ser


parti daí
  pra cá que estou
   saudades sinto
   mas sempre vou
        e nunca esqueço


as nossas mazelas
tão nossas tretas
essa coisa doida
         e doída
   ferida aberta


te quero pra sempre
dentro de mim
berço onde nasci
mas não posso nunca
deixar pra trás


essa outra raiz
minha matriz
caipira província
que também
me contém


e nesse duplo vou além


06/11/10
00:52:06

Um dia qualquer (conto)

Salvador Dalí, "Premonição da Guerra Civil", 1936


por Ricardinho Sales


Cheguei ao hospital em coma induzido. Nada me abalava, ainda assim, vagarosamente abri os olhos: meu cérebro não queria obedecer. O que eu via era coisa que eu sabia que me traía: uma comadre pra mijar, uma foto do Barack Obama e a presença física dela. Tinha um câncer na minha mão. Assoprei, ele caiu no chão e feito bolinha de pinball, saiu batendo pelo quarto todo. Como não podia virar o pescoço, acompanhei-o com as pupilas. Ricocheteou nos ladrilhos, ela ficou sem entender, ele rodou por todo lado, foi quebrando tudo até dar a volta nela, encontrou sua nuca. Nisso, ele reconheceu matéria orgânica e grudou no cabelo. Ela sentiu o baque, pôs a mão e ele engoliu a mão dela. Ela olhou pra mão sem mão e saiu correndo, gritando pelos corredores que não queria o câncer, porque ela era de sagitário, além de loira. A enfermeira chamou o exército e botaram nela uma camisa de força camuflada. Um helicóptero de aeromodelo pousou no saguão do hospital, dispararam nela um raio miniaturizador e Fernão Capelo Gaivota saiu escoltando o brinquedo, voaram até desaparecer, mas antes colocaram a antena do controle remoto na minha cabeça pra eu definir o destino. Como eu tava dopado e em coma, pensava em Alice e nos jogos de bilhar dos livros do João Antônio. A uma hora dessas, ela deve estar numa mesa do Bexiga, com o Chapeleiro Louco, usando o coelho branco de bolão e a mão maneta de taco, toda liliputiana, correndo pelo pano verde.

Eu fiquei então sozinho no quarto. Pensava num globo estroboscópico de furos a envolver o sol. Comecei a ouvir uma batida de rap, entraram pela porta o Tião Macalé e o Antônio Abujamra cantando “Homem na estrada”, querendo me alegrar. Pedi com os olhos pra eles saírem, e não fui atendido. Liguei a televisão e vi o Sílvio Santos apresentando o Jornal Nacional, chamando uma reportagem em que o Ney Matogrosso entrevistava o Maguila num Congresso Internacional de Ciências Proctológicas Elegantes. Depois, cortaram para uma rave num presídio, onde Chitãozinho & Xororó eram DJs, apresentados pelo Cid Moreira em figurino de Hip Hop. “Pôxa vida, que mundo sem novidades...” – pensei comigo, enquanto materializava uma fogueira, depois de transformar meus visitantes em lenha.

Saí levitando, já que não podia andar e, no corredor do centro cirúrgico. Vi o Touro Bandido xavecando a Vaquinha Mococa e lhe oferecendo leite condensado peniano, enquanto dois açougueiros lhes tiravam escamas do contra-filé com tesouras de jardinagem, descarnando-os. Em outro corredor, achei a ala da ortopedia e o polvo Paul debatia com o Lula sobre os tentáculos do poder, enquanto na ala psiquiátrica tinha um trio elétrico no pátio com o Suplicy comandando a festa, cantando axé em versão psy trance. Subi ao topo do prédio, ouvi uma voz na minha cabeça, era o Professor Xavier pedindo pra eu tomar cuidado, porque a Jean Grey confessou lá na mansão que estava apaixonada por mim, e com isso o Wolverine e o Ciclope tavam querendo me pegar pra acertar as contas, muito putos com essa estória. Pensei comigo (e era como se eu falasse em voz alta, o cara é telepata) no que fazer, aí me lembrei dum ritual de pacto com o diabo que li no Livro de São Cipriano, comecei a me perguntar onde eu achava algumas das ferramentas. O Professor me disse pra eu não me preocupar, no que eu falei que o Ciclope é meio bundão, com ele eu não tava nem um pouco preocupado, mas com o Wolverine...

O Professor foi embora e eu fiquei pensativo. Foi aí que eu vi, na relva do hospício, o Pinóquio, o Pequeno Príncipe e o Holden Caufield. O Holden tava fumando maconha com os moleques, iniciando os carinhas. Ele continuava sendo aquele cara chato de sempre. Cheguei na roda dos caras, me arrumaram um baseado de orégano com manjericão, fumamos e trocamos uma ideia. O Pinóquio ia assumir os negócios do Seu Gepeto, que tinha acabado de se aposentar e se associou com uns madeireiros ilegais de umas terras griladas lá da Amazônia, ia montar uma serraria para criar um exército de clones. Me contou sobre seu relacionamento com a Emília e sobre como é complicado uma relação de pano com madeira. Às vezes umas ferpas cortavam o pano e as linhas enroscavam, machucava a boneca, uma situação infernal. E a Dona Benta tava puta da vida porque o Seu Gepeto tinha dançando com uma outra senhora no bailão do fim-de-semana, gastou 2 comprimidinhos azuis com outra coroa e, com isso, ela largou do velho e proibiu o garoto de pau de freqüentar o sítio. Mas eles estavam planejando fugir, com a ajuda do Pequeno Príncipe, que resolveu assumir a homossexualidade e tava juntando as escovas de dente com o Peter Pan e ia fazer uma seqüência de viagens pelo universo. Me chamaram pras viagens, eu até pensei em chamar a Jean, mas ela não ia largar o trabalho de salvar o mundo, ela sempre foi muito workaholic. Tínhamos conversado outra vez sobre ela tirar umas férias, ela não quis e o Professor entrou na minha mente e me fez desistir da ideia. À distância. E tem outra, se eu tirasse a Jean do serviço por uns dias, era suicídio. Aí os caras vinham babando pra cima de mim. Nem o Xavier os seguraria. Por isso estávamos brigados.

Eu tava acertando os combinados, resolvi aceitar o convite de viajar com os moleques, ia dar uma ligada pra Lolita e ver se ela tinha mesmo largado daquele babaca pedófilo do Humbert Humbert e chamar ela pra viajar comigo, transar uma viagem pelo universo, ele tava bravo com ela porque a gente também tava saindo e o coroa não gostou de saber desse novo chifre, depois que ela veio pro Brasil, ele quis tirar satisfação e tentou briga, dei uns tapas nas fuças dele pra ver se criava vergonha. Nisso, o Holden se intrometeu na conversa e quis saber porque ninguém tinha convidado ele, ficou bravo, brigou com a gente e saiu falando que ia voltar com o Mark Chapmam quando o cara sair da cadeia.

Saímos todos pra um boteco e encontramos a ovelha Dolly se tosquiando ao lado da Lessie, enquanto a Xuxa dirigia um filme pornô nos fundos, uma paródia de Brokeback Mountain com o Jece Valadão e o Datena de protagonistas. Ela pediu silêncio, e fizemos de conta que não era com a gente. Achamos uma mesa no canto e ficamos lá. O Pinóquio recebeu uma ligação no celular e teve que deixar a gente, ficamos eu e o Pequeno Príncipe. Conversamos, e o papo foi pro mau caminho: o ninfomaníaco viado ficou me cantando, pedindo pra eu ir dar uma com ele no banheiro, rapidinho. Tirou do bolso uma flor e me deu, me cantando na cara dura. Dei uns safanões nele, deixei ele no chão,larguei uma nota de R$ 20,00 na mesa pra pagar a conta e saí vazado de lá, pra evitar confusão maior. Desencanei de procurar outra coisa pra fazer. Flutuei de novo pro meu quarto e dei de cara com a Hebe e o Jack Bauer transando na minha maca. O Jack ficou bravo porque a Hebe me viu e me chamou de “Gracinha”, me convidou pra brincadeira, no que ele respondeu que não era homem de ménage, afinal era republicano, calvinistae só aceitava ordem do George Bush. Declinei do convite, fechei a porta e fui pro corredor, deixei os dois à vontade, nisso o Tiger Woods passou abraçado de duas enfermeiras, segurando dois tacos de golfe, percebi a perversão que ele ia aprontar. Fiquei do lado de fora do hospital, espiando as colinas verdes que o rodeavam, sentindo a vida passar e esperando mais esse dia chato acabar. Odeio essa monotonia!


Verão 2009/2010